Um pouco sobre inundações e deslizamentos [1].

De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas,
mas a resposta que dá às nossas perguntas.
Italo Calvino, em ‘As cidades invisíveis.

Falar em inundações, alagamentos e deslizamentos como um problema pressupõe – antes de mais nada – a existência de ocupação humana em áreas que alagam ou são atingidas por movimentos de massa: (…) isso pode parecer óbvio, mas não é.

Não costumamos relatar os eventos de alagamento na Estação Ecológica do Taim (RS),por exemplo: lá vivem cerca de 230 espécies de aves, jacarés-de-papo-amarelo, preás, capivaras, lagartos e mais de 60 espécies de peixes…… todos sujeitos ao risco diário de inundação….. esta área espetacularmente alagada é o que permite a vida e a riqueza da biodiversidade.

Buenas. O problema está onde estão as pessoas (!!) e o que quero dizer é que se fosse tão óbvio, áreas sujeitas ao risco de inundação e deslizamento não existiriam (…) ou seja, não teriam sido historicamente ocupadas pelo homem.

São as áreas que alagam ou somos nós que nos alagamos, submetemo-nos à ‘submersão’? São os morros que deslizam ou somos nós que temos nos sujeitado a este risco?

Grande parte das cidades brasileiras desenvolveram-se ao longo dos vales dos diversos cursos d’água do país, sem que as questões envolvidas com a drenagem ou  fragilidade dos solos tivessem ocupado papel destacado na pauta das decisões sobre o planejamento do uso e ocupação do solo e da preservação dos escoamentos hídricos naturais. Os sistemas de drenagem dos municípios muitas vezes estão comprometidos na área urbana pelo avanço da especulação imobiliária e pela expansão territorial ‘ad aleatorium’. Não faltam exemplos pelo Brasil.

Ora, os espaços foram ocupados, temos ‘o’ problema instalado e estes têm sido questionamentos frequentes, seja pensando em inundação ou em deslizamento:

  • é possível reduzir as inundações nas cidades e minimizar os impactos refletidos nas áreas urbanizadas? É possível desenvolver visões preventivas e estratégicas, no intuito de promover o planejamento por uma gestão sustentável da drenagem urbana? Sob a mesma ótica, é possível reintegrar os rios das cidades e conciliar meio ambiente e desenvolvimento?
  • É possível reduzir os eventos relacionados à erosão e aos deslizamentos (movimentos de massa) em áreas urbanizadas? É possível desenvolver visões preventivas e estratégicas, no intuito de promover o planejamento por uma gestão sustentável do uso e ocupação do solo urbanos? E, sob o mesmo enfoque, é possível reintegrar as áreas com altas declividades das cidades e conciliar meio ambiente e desenvolvimento?

Certamente não é uma tarefa fácil, mas é possível … e é possível por uma série de motivos, mas há uma coisa especial: nós – seres humanos – temos condições de saber onde, quando, como e porque alaga ou escorrega ……. Tanto sabemos que disso deriva – por exemplo – a nossa atual legislação federal (destaco o código florestal de 1965, atualizado em 2012, que protege esses locais de nós mesmos!).

Não quero entrar em detalhes nesta postagem sobre legislação, mas basicamente a sigla APP (Áreas de Preservação Permanente, regulamentada em Lei) consegue traduzir quais são os locais que deveriam permanecer ‘quietos’, seguramente longe da nossa ocupação.

O que é preciso ter em mente – e isso é chave para o entendimento da problemática – é que o controle das inundações (ou deslizamentos) não pode ser feito simplesmente por uma ou duas intervenções. Da mesma forma, as soluções não devem ser simplificadas a uma obra surpreendentemente milagrosa. Um projeto efetivo deve estar inserido em um contexto macro de planejamento, tanto com medidas estruturais (de contenção emergencial, pontual, pela segurança local) como as não estruturais (de planejamento e abordagem conceitual do problema).

Eu não tenho dúvidas que problemática em tela é um grande desafio para o qual todos nós temos condições particularmente favoráveis para o seu enfrentamento: equipes especializadas por todo o país – formadas por universidade de excelência -, recursos disponíveis (financeiros e espaciais), experiência acumulada em estudos, diagnósticos, planos, projetos e programas associados ao tema em referência.

Certamente um tema complexo, cuja abordagem e soluções são igualmente complexas – porque os interesses da nossa sociedade patrocinam os riscos.

Então isso exige gestão, planejamento. Então… basta querer?

Maria C. L. Polidori
[1] Em retribuição às respostas que a cidade ‘mar de morros e das marés’ (Joinville | SC | Brasil) tem me dado.

Reunião técnica em sampa

Sinto falta dos aide-memoire do Cadu. Sugiro que o Rafa o faça. É legal  e ajuda muito todos os envolvidos. Aide-memoire em blog então, anglofranco na boa.

Reuniões boas. A metodologia de enquadramento tende a se transformar em uma excelente ferramenta para suporte à gestão e às negociações do comitê. Jackie, o que você achou das idéias a respeito?