re-blog. De novo “O Nosso Metro”

Tendo em vista uma série de palestras que virão, resolvi republicar um post sobre o Metrô de Curitiba, ainda de um outro blog que eu mantinha (e que ainda está online: www.rhramina.blog.uol.com.br).

Alguns números estão defasados, mas a idéia geral permanece, bem como a pertinência da crítica, portanto aqui vai.

Abraços

R Ramina

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O NOSSO METRÔ.

Mais da mesma coisa.

O Metrô é uma alternativa tecnológica para o transporte de grandes fluxos de pessoas em trechos relativamente curtos, já que seu custo de instalação gira entre 70 e 150 milhões de Reais por quilômetro. Em áreas metropolitanas congestionadas, com altas densidades urbanas e em condições particulares de implantação, o Metrô pode até mostrar uma eficiência econômica que beira o break-even. O retorno político, por outro lado, é muito grande, e por isso o Metrô é tão popular.

Mas a questão do Metrô pode não ser essencialmente tecnológica. Talvez o fator determinante seja mesmo a classe média não querer “deixar o carro na garagem para passar desconforto”, como afirma o Presidente do IPPUC, o Eng. Augusto Canto Neto. Afinal, alguém tem que ir aos Shoppings, e de Metrô é mais charmoso! Seja como for, o Metrô tem sido considerado um remédio contra o congestionamento parcial, porém crescente, do sistema de trânsito de Curitiba – um remédio caro. O primeiro ramal, com 22 km, está orçado entre 1,5 e 2 bilhões de Reais para 390 mil viagens/passageiros por dia, ou seja, umas 200 mil pessoas (esse número está totalmente defasado – o número em Janeiro de 2014 era 4,6 bilhões de reais).

Até aí tudo bem. O problema é que o remédio, melhor que seja, pode não funcionar, porque o congestionamento é um sintoma, e não a causa. Afinal, por que tanta gente resolve ir pra rua ao mesmo tempo? A causa é a concentração urbana crescente de Curitiba, o aumento das densidades populacionais e de atividades no pólo metropolitano, tão marcante nos últimos 20 anos. E, é claro, as políticas públicas que levaram a essa concentração já excessiva. Temos outros sintomas, alguns até mais importantes que o congestionamento, e para os quais o tratamento prescrito é igualmente oneroso: as medidas necessárias para controlar as cheias na Bacia do Alto Iguaçu, amplificadas pela impermeabilização da superfície do solo resultante das altas densidades de ocupação, custariam perto de R$ 1 bilhão. Já a atenuação da poluição nessa mesma bacia exigiria cerca de R$ 2 bilhões (números também defasados, mas não tenho informações atualizadas). Esses projetos beneficiariam direta ou indiretamente mais de 2,5 milhões de pessoas.

Mas nada se compara ao custo de oportunidade perdida nas economias dos municípios periféricos. Suas áreas para desenvolvimento são transformadas em áreas de preservação de mananciais, uma vez que as fontes de água no pólo estão comprometidas e a demanda não pára de crescer. Carente das economias de escala capturadas pela capital, a periferia sofre com a falta de infraestrutura para os “dormitórios” e fica à mercê da boa vontade dos políticos, das volatilidades da indústria globalizada e dos “Planos de Desenvolvimento Sustentável de Ecoturismo Rural”. Ninguém acredita que possa existir vida inteligente fora do Núcleo Urbano Central, muito menos outros pólos econômicos viáveis. Nem mesmo a COMEC.

Equilibrar essa concentração toda, e ainda a que o Metrô vai ajudar a viabilizar, não será tarefa fácil. Exigiria, de início, uma nova visão metropolitana, menos míope, que permitisse enxergar além do Passaúna, das BR116 e 277, e ver, com muita clareza, as conseqüências do depósito de periferia em que Fazenda Rio Grande e Itaperuçu estão se transformando. Seria também necessário contemplar os imensos espaços vazios e deprimidos nos vales do Iguaçu e do Açungui e, com muita criatividade e simplicidade, imaginar novas possibilidades para a Lapa e Morretes, para as estradas de ferro e os caminhos esburacados do grande sertão metropolitano. Mas criatividade e simplicidade andam em baixa entre nossos planejadores.

Rodolpho Ramina

 

Política de Enquadramento – uma discussão (longa)

Faz tempo que não blogo, mas isso não quer dizer que não tenho produzido. Só tenho sido relapso no blogar. Espero que tenham sentido saudades.

Rio Grande em Barreiras, BA
Rio Grande em Barreiras, BA

O que eu trago aqui hoje é um texto que enviei para a lista ABRH-Gestão (Yahoo groups), num thread sobre a política de enquadramento prevista na lei 9433/99 (recursos hídricos). Vou mantê-la na íntegra (com algumas inevitáveis correções). É um pouco longa, mas espero que tenham uma boa leitura.

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Colegas da lista

Também tenho umas colocações a respeito do enquadramento, e vou colocá-las neste post que vai ficar longo demais – já vou avisando.

Tem me parecido que há uma distorção de abordagem quanto ao enquadramento e como ele tem sido operado. A regra é que nos planos se fazem “balanços hídricos qualitativos”, calculando as cargas (muito aproximadamente), os fatores de decaimento (estes, chutadíssimos), somando com o remanescente de montante e verificando se a Q95% (ou outra vazão de referência) é suficiente para diluir a carga e manter um dado trecho de rio dentro de uma classe considerada.

Essa abordagem me parece equivocada. Ela é uma analogia do processo de balanço que se faz para um outro instrumento de gestão previsto em lei, a outorga. Neste caso o balanço soma as retiradas e as compara com uma vazão de referência que, explicita ou implicitamente, representam o risco que se
deseja correr no que se refere ao “fechamento” do balanço hídrico quantitativo. Também há muito o que se discutir sobre esse procedimento, e nas suas impĺicações sobre a política de outorgas em uma determinada bacia, mas isso é para outro post.

O enquadramento, por outro lado, tem uma alcance muito maior do que simplesmente a inspeção de alguns resultados de um modelo de qualidade da água. Estes modelos trabalham com escalas temporais e espaciais muito diferentes daquelas que um Plano de Bacias, por exemplo, tem que trabalhar. E, correndo o risco de soar radical demais, eu diria até que esses modelos são irrelevantes para a questão do enquadramento! E já vou
ao ponto que gostaria de fazer, antes de ser trucidado pelos hidrólogos-modelistas.

Com seu foco de atuação em bacias hidrográficas, a Lei 9.433 prevê, em seu Artigo 9, o enquadramento dos corpos de água em classes, segundo os usos preponderantes da água. O enquadramento teria por objetivos “assegurar às águas qualidade compatível com os usos mais exigentes a que forem destinadas” e “diminuir os custos de combate à poluição das águas, mediante ações preventivas permanentes.”

Os usos preponderantes da água, objeto do enquadramento de um trecho de rio, tem uma relação estreita com os usos previstos ou desejados para a bacia hidrográfica contribuinte. Alguns dos parâmetros mais restritivos para o enquadramento de corpos hídricos estão relacionados com os esgotos urbanos, principalmente a DBO e o Fósforo, associados à poluição por
esgotos urbanos; e à poluição difusa em áreas de agricultura ou pecuária intensa. Mas existem também outros poluentes mais complicados de fazer desaparecer e para os quais não é suficiente o tratamento convencional.

Pode ser demonstrado que, dada uma determinada classe de enquadramento prevista na Resolução 357/05 do CONAMA, para cada vazão de diluição adotada como referência haverá sempre uma densidade populacional limite na bacia contribuinte. Essa relação entre classes de enquadramento, permanência de vazões e densidades limite já foi articulada em diversos
planos dos quais participei e sempre levanta olhares de terror e
exclamações de “heresia!!!”. Se alguém estiver realmente interessado, eu mando um link para uma demonstração matemática formal.

Mas continuando: por seu turno, as densidades populacionais numa bacia hidrográfica resultam dos tipos de uso e ocupação desse território, que estão sujeitos às diretrizes de ordenamento espacial dos municípios a que pertence a bacia, como prevê a Constituição Federal. Sendo assim, esta pode ser a conexão entre essas duas escalas de planejamento: a densidade populacional média na escala das sub-bacias, que permitiria o enquadramento de trechos de rio em uma classe desejável.

E vejam bem: o enquadramento de um trecho de rio, na realidade, enquadra a qualidade ambiental de uma sub-bacia! A Lei 9.433 não fala de gestão de trechos de rio, mas sim de gestão de bacias (e, por conseguinte, de sub-bacias). A inclusão de estações de tratamento de efluentes logo antes do “trecho de rio enquadrado” não torna a bacia necessariamente despoluída –
apenas escondemos, nas redes de esgoto, toda a poluição, os ratos, as baratas e as doenças (isso quando existe rede de esgoto). E, é claro, existem aqueles casos já mencionados por alguns colegas em que a vazão de referência é zero!…

A determinação de uma densidade limite permite, portanto, estabelecer um parâmetro explícito que conecta duas escalas distintas de planejamento: a macro-escala dos processos que acontecem no nível de bacias e sub-bacias hidrográficas; e a microescala dos processos que ocorrem no nível da gestão
urbana, por bairros e manchas de ocupação, no caso de bacias urbanas. A política de enquadramento prevista na Lei 9.433 faz essa conexão.

Mas, infelizmente, não é isso que se tem visto. O enquadramento tem servido, quando muito, para exacerbar a ira de ambientalistas contra os poluidores e resulta, via de regra, numa estimativa torpe de quantos milhões de reais se deverá investir na próxima estação de tratamento de esgotos. Ou seja, focamos no sintoma e não na causa.

Poucos compreendem o alcance da Lei 9.433 e do instrumento de enquadramento no que tange ao planejamento territorial.

Peço desculpas pelo tamanho do post, mas se você não gostasse de ler sobre essas coisas deveria ter ido ver novela.

Abraços a todos.

R Ramina

putaria ou picaretagem?

Primeiro, já vou pedindo desculpas aos meus leitores mais sensíveis pelo aparentemente ofensivo título deste post. Mas eu explico: estas últimas semanas o tema que tem vindo a tona em diversas reuniões com colegas vem sendo a “sacanagem” (menos ofensivo, mas ainda assim…) em que se transformou a gestão dos investimentos em infraestrutura neste país. O termo “putaria” (sic) faz referência àquelas casas de tolerância tão bem frequentadas pela fina casta de políticos, senadores, membros do Tribunal de Contas (alguns são até donos), donos de empreiteiras, fiscais, etc. em que tudo rola. Também conhecida como a “Casa da Mãe Joana”, se caracteriza pelo ambiente cordial, libertário e isolado dos olhares curiosos em que o que vale é quem tem mais grana pra se deliciar com os melhores pratos, e todas as outras regras simplesmente se dobram a esse critério. Esses locais foram muito bem descritos por Jorge Amado em diversas de suas obras.

Mas às vezes a casa cai. O recente escândalo da Siemens é isso: uma das maiores empresas multinacionais ligadas a setores importantes, e que participou intimamente na construção de nossa infraestrutura de geração de energia, saúde, transportes, comunicações, etc. vem agora delatar um conchavo de empreiteiras e fornecedores para as obras do metrô paulista (da qual ela sempre fez parte…) em troco de uma “pena mais leve” ??? muito estranho… E, ao mesmo tempo, centenas de milhares saem às ruas chamando a atenção para a decadência desse mesmo sistema de transporte, e o de saúde, e o de comunicação que, mesmo com toda essa putaria (de novo… é inevitável) ainda assim são um descalabro.

Alguns colegas, virgens vestais, ainda se chocam com a prática história da formação de cartéis para repartir as gordas licitações de obras públicas como as do metrô. Outros já dizem que sem essa sacanagem não rola nada. Até no Vaticano! quantos milhares de Euros na batina do cardeal? E aqui na cueca do pastor! Somos todos cristãos, afinal. Um outro colega, este diretor de negócios de uma conhecida empresa de projetos paulista, afirma peremptoriamente: A putaria sempre existiu. Existiria desde antes do Império Romano.

Tendo vivido meus quase 40 anos (já?) de vida profissional envolvido com projetos de infraestrutura, o que eu tenho a dizer é que sempre foi assim. Ou quase. Alguém um dia inventou esse mito da separação entre a coisa pública e a privada, mas isso foi para enganar trouxa e criar mais cúmplices. O que sustenta as grandes empresas (e os grandes exércitos e as grandes indústrias etc.) é o investimento público. E pra quem pensa que não há interferência privada direta em como esses investimentos são “distribuídos” recomendo que pare de comer cogumelos, Alice!

Mas há que se chamar a atenção para um fato que passa quase desapercebido: putaria (de novo…) não é sinônimo de picaretagem, ou ao menos não era até um passado próximo. Mesmo as putarias (agora que se lixe…) que vimos acontecer durante a ditadura militar no Brasil, que fizeram as fortunas de Sebastiões Camargos, Andrades Gutierrez, Cecílios Almeidas, Siemens, Brown Boveris, Voiths, GEs, etc. etc. elas não eliminaram a necessidade de se fazer alguma coisa que prestasse. Tinha pouca margem para a picaretagem, porque muito se investiu em competência técnica – os milicos tinham que dar uma resposta, afinal eles se julgaram melhores que os outros e assumiram o prostíbulo (Brasília?). De outro modo como explicar o sucesso de uma Embraer, de uma Vale, Petrobrás e Eletrobrás? Ou de uma Copel, ou do sistema de transporte de Curitiba, baseado em um ônibus e num sistema criativo, pra ficar mais perto de casa?

O fato é que agora só tem putaria (… é mais forte que eu). Até o quarto escalão, ou bem mais abaixo. Cada um quer o seu, pouco se importando com o objeto desses contratos fantásticos. Políticos precisam de orçamentos fabulosos para financiar suas megacampanhas. Eikes precisam estar no topo da Forbes. E os jovens se esquecem que tem que aprender a fazer alguma coisa que preste. Mas preferem ser chamados de executivos ou diretores, ou governadores; ofuscados pelo brilho da purpurina e o cheiro de lança perfume argentino (ou do pó boliviano) querem a sua parte – afinal, sou filho do papai, e também cheguei lá! (sobe a bandeira a meio pau…).

Pois é. E, enquanto isso, o povo se junta nas ruas, percorrendo redes desconhecidas e invisíveis aos olhos embotados dos clientes dos puteiros. E a grande Siemens resolve dedurar os antigos “cumpanheiros” de máfia. A caterva do PT foi mais solidária no mensalão…

Crianças, escutem: Um dia a casa cai.

R Ramina (imbuído do espírito das ruas)

O renascimento do planejamento regional?

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Baía da Guanabara, vista do porto com a Ponte Rio-Niterói ao fundo

Na semana que passou (2 a 4 de julho 2013) tive a satisfação de ter sido convidado para participar de uma oficina (ou “reunião de trabalho”) promovida pelo INEA – Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro, GEF e FAO, no âmbito do BIG – Projeto Baía da Ilha Grande. O objetivo da reunião foi o de avaliar uma estratégia de integração dos instrumentos de gestão dos recursos hídricos e do gerenciamento costeiro do Rio de Janeiro.

Coisa metodologicamente complexa, politicamente carregada e de difícil implementação são não só os Planos de Bacias mas também o Zoneamento Costeiro. Questões de escala, foco, bases de informação, relações institucionais entre os muitos níveis de decisão, atribuições e responsabilidades legais e constitucionais, participação, urgência dos problemas, mobilização e, é claro, a “voz das ruas” – todos esses vetores vieram à tona e foram discutidos e avaliados. Até a cura gay entrou no debate.

Muito do que a U&A tem produzido (e que está exposto neste blog) foi discutido. Questões metodológicas e político-institucionais foram profundamente debatidas, casos foram apresentados e analisados nesse encontro, que contou com cabeças de primeira ordem. Listo aqui alguns nomes correndo o inevitável risco de deixar alguns de fora em razão do já galopante Alzheimer:

  • Aline Nunes Garcia – Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos. (IEMA/ES)
  • Andrea Olinto – Coordenadora do Programa de Gerenciamento Costeiro da Secretaria de Meio Ambiente de Pernambuco (GERCO/PE)
  • Antônio Eduardo Lanna – Consultor na área de recursos hídricos, com experiência na área de engenharia de recursos hídricos, com ênfase em hidrologia e planejamento de recursos hídricos.
  • Leila Swertts – Gerente da Gerência Costeira, Diretoria de Zoneamento Territorial, Secretaria de Extrativismo e Desenvolvimento Rural Sustentável do Ministério do Meio Ambiente (DZT/SEDR/MMA)
  • e ainda a Maria Gravina Ogata, Ricardo, Marie, Tiago, Léo, Bruno, Patrícia e toda a equipe jovem, brilhante e cheia de gás que a Rosa Formiga conseguiu montar no INEA ao longo desses anos turbulentos de grandes reformas estruturais na Secretaria do Ambiente do RJ.

E você perguntaria: Quais os resultados? o que eu posso dizer é que há muito mais questões do que resultados. Se a coisa fosse simples já teria sido resolvida, não é mesmo? E, como eu digo sempre, para todo problema complexo há sempre uma resposta simples, direta e errada. Serviu para o pessoal de gestão parar pra refletir um pouco sobre as CAUSAS dos problemas que enfrentam, e não só nos seus SINTOMAS. Serviu também para jogar um pouco mais de luz sobre o que vem sendo vendido como “plano” no já picaretado “mercado de planos” nacional (incluo aqui tanto algumas empresas de consultoria como algumas agências oficiais contratantes), que se satisfaz com diagnósticos intermináveis e programas de ação inócuos (lembram muito mais uma feira de ciências de alunos do ensino fundamental – sem querer ofender estes últimos).

O que me deixou muito feliz não foram os “resultados”, que, de passagem, ninguém ali estava preocupado em definir. Muito mais importante foi a constatação que o planejamento regional vem renascendo. Não só como uma disciplina ou um título para a caixinha das “coisas a resolver”, mas muito mais como necessidade para se poder entender a realidade e de como organizar uma abordagem de gestão. É coisa complicada, assoberbante… mas ruim com ele, muito pior sem ele, como vemos hoje as consequências de sua falta nos setores de transportes, logística, saúde, ambiente, energia, recursos hídricos, etc.. etc.. etc.. “Vide as ruas”…

Muito teria o que dizer aqui sobre o encontro, cujos insights continuam produzindo seus efeitos na minha cabeça. Mas, como o espaço é curto, só preciso mesmo agradecer o convite e esperar que tudo o que rolou tenha sido tão útil para o INEA como foi para mim.

R Ramina

“Arquitetura. Ela começa a espernear de novo.”

[Compartilhando coisas]

Ontem assisti ao Roda Viva, na TV Cultura. Lá estava o arquiteto Paulo Mendes da Rocha, como entrevistado.  Que fantástico.

O arquiteto manifestou seu fascínio pela cidade, este objeto tão nosso, tão espetacular e complexo. Aos que puderem resgatar o debate de ontem, eu recomendo que assistam. Foi uma aula de arquitetura, urbanismo, engenharia e vida.

Encontrei este link, que fala um pouco sobre o arquiteto:
http://paulomendesdarocha.wordpress.com/
E aqui uma entrevista à Revista VITRUVIUS, em 2006:
http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/07.026/3302

Durante o programa de ontem, lembrei-me de duas personalidades: (i) Olga Benário – que deixo para o final – e (ii) Italo Calvino. Calvino obviamente porque abordou seu fascínio pelo símbolo complexo da cidade ao dizer que lhe permitia “maiores possibilidades de exprimir a tensão entre a racionalidade geométrica e o emaranhado das existências humanas” (CALVINO, em Seis Propostas para o Próximo Milênio). Paulo Mendes da Rocha falou sobre isso – dentre outras coisas-, sobre a existência humana… com uma linguagem autêntica, clara, simples direta e acessível.

Como é bom se reconhecer no discurso de outras pessoas, em outros colegas e profissionais. Ouvir tanta coisa boa, aprender, rever, reler, reaprender. Expressividade! Opinião! Produção! Parabéns ao trabalho de Paulo Mendes.

Que a nossa angústia por saber o que é bom, certo e justo – e não conseguir realizar tudo plenamente a todo instante – mantenha vivo ao menos o desejo pela transformação, pelo processo de construção de oportunidades. E, claro, de cidades norteadas por um valor maior, mais puro e prazeroso que o da vulgar especulação [imobiliária].

Olga? Sim: o programa de ontem me fez lembrar de sua célebre frase: “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo”.

Maria Carolina Leal Polidori

(*) SEIS PROPOSTAS PARA O PRÓXIMO MILÊNIO – Lições americanas (Italo Calvino):  Declaração de ética, mais que de poética, as conferências que Calvino preparou para a Universidade Harvard representam o testamento artístico de um dos protagonistas literários do fim de milênio. Em meio à crise contemporânea da linguagem, cada vez mais aguda, o grande escritor italiano identifica as seis qualidades que apenas a literatura pode salvar – leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência -, virtudes a nortear não apenas a atividade dos escritores mas cada um dos gestos de nossa existência. Feitas de divagações, memórias, trechos autobiográficos, as Seis propostas de Calvino constituem um precioso legado do milênio para as gerações do ano 2000 (COMPANHIA DAS LETRAS 2013).

Um pouco sobre inundações e deslizamentos [1].

De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas,
mas a resposta que dá às nossas perguntas.
Italo Calvino, em ‘As cidades invisíveis.

Falar em inundações, alagamentos e deslizamentos como um problema pressupõe – antes de mais nada – a existência de ocupação humana em áreas que alagam ou são atingidas por movimentos de massa: (…) isso pode parecer óbvio, mas não é.

Não costumamos relatar os eventos de alagamento na Estação Ecológica do Taim (RS),por exemplo: lá vivem cerca de 230 espécies de aves, jacarés-de-papo-amarelo, preás, capivaras, lagartos e mais de 60 espécies de peixes…… todos sujeitos ao risco diário de inundação….. esta área espetacularmente alagada é o que permite a vida e a riqueza da biodiversidade.

Buenas. O problema está onde estão as pessoas (!!) e o que quero dizer é que se fosse tão óbvio, áreas sujeitas ao risco de inundação e deslizamento não existiriam (…) ou seja, não teriam sido historicamente ocupadas pelo homem.

São as áreas que alagam ou somos nós que nos alagamos, submetemo-nos à ‘submersão’? São os morros que deslizam ou somos nós que temos nos sujeitado a este risco?

Grande parte das cidades brasileiras desenvolveram-se ao longo dos vales dos diversos cursos d’água do país, sem que as questões envolvidas com a drenagem ou  fragilidade dos solos tivessem ocupado papel destacado na pauta das decisões sobre o planejamento do uso e ocupação do solo e da preservação dos escoamentos hídricos naturais. Os sistemas de drenagem dos municípios muitas vezes estão comprometidos na área urbana pelo avanço da especulação imobiliária e pela expansão territorial ‘ad aleatorium’. Não faltam exemplos pelo Brasil.

Ora, os espaços foram ocupados, temos ‘o’ problema instalado e estes têm sido questionamentos frequentes, seja pensando em inundação ou em deslizamento:

  • é possível reduzir as inundações nas cidades e minimizar os impactos refletidos nas áreas urbanizadas? É possível desenvolver visões preventivas e estratégicas, no intuito de promover o planejamento por uma gestão sustentável da drenagem urbana? Sob a mesma ótica, é possível reintegrar os rios das cidades e conciliar meio ambiente e desenvolvimento?
  • É possível reduzir os eventos relacionados à erosão e aos deslizamentos (movimentos de massa) em áreas urbanizadas? É possível desenvolver visões preventivas e estratégicas, no intuito de promover o planejamento por uma gestão sustentável do uso e ocupação do solo urbanos? E, sob o mesmo enfoque, é possível reintegrar as áreas com altas declividades das cidades e conciliar meio ambiente e desenvolvimento?

Certamente não é uma tarefa fácil, mas é possível … e é possível por uma série de motivos, mas há uma coisa especial: nós – seres humanos – temos condições de saber onde, quando, como e porque alaga ou escorrega ……. Tanto sabemos que disso deriva – por exemplo – a nossa atual legislação federal (destaco o código florestal de 1965, atualizado em 2012, que protege esses locais de nós mesmos!).

Não quero entrar em detalhes nesta postagem sobre legislação, mas basicamente a sigla APP (Áreas de Preservação Permanente, regulamentada em Lei) consegue traduzir quais são os locais que deveriam permanecer ‘quietos’, seguramente longe da nossa ocupação.

O que é preciso ter em mente – e isso é chave para o entendimento da problemática – é que o controle das inundações (ou deslizamentos) não pode ser feito simplesmente por uma ou duas intervenções. Da mesma forma, as soluções não devem ser simplificadas a uma obra surpreendentemente milagrosa. Um projeto efetivo deve estar inserido em um contexto macro de planejamento, tanto com medidas estruturais (de contenção emergencial, pontual, pela segurança local) como as não estruturais (de planejamento e abordagem conceitual do problema).

Eu não tenho dúvidas que problemática em tela é um grande desafio para o qual todos nós temos condições particularmente favoráveis para o seu enfrentamento: equipes especializadas por todo o país – formadas por universidade de excelência -, recursos disponíveis (financeiros e espaciais), experiência acumulada em estudos, diagnósticos, planos, projetos e programas associados ao tema em referência.

Certamente um tema complexo, cuja abordagem e soluções são igualmente complexas – porque os interesses da nossa sociedade patrocinam os riscos.

Então isso exige gestão, planejamento. Então… basta querer?

Maria C. L. Polidori
[1] Em retribuição às respostas que a cidade ‘mar de morros e das marés’ (Joinville | SC | Brasil) tem me dado.

sobre a ilusão dos modelos matemáticos

Esta vida de consultor traz muitas pérolas. Esta semana, durante uma atividade que não faço há muito tempo (ter aulas em um curso sobre modelos matemáticos), veio à baila um debate muito interessante: a validade (ou até a utilidade) dos modelos de qualidade de água para a gestão dos recursos hídricos.

Tá certo: eu sou briguento e turrão, e na medida em que o tempo passa isso vem se aprofundando. Mas tem coisas que não podemos deixar passar, e uma delas é a maneira como os engenheiros estão distorcendo a sua percepção sobre problemas de gestão de recursos hídricos causada, ao meu ver, por uma ilusão, ou melhor, por uma miragem.

Engenheiros tem uma tendência a acreditar em números, e quanto mais desses números, melhor. Eu posso falar porque sou um engenheiro, meu pai é engenheiro e fundei, trabalhei e convivi com empresas de engenharia toda a minha vida profissional. E uso modelos matemáticos. Como são muito pragmáticos, os engenheiros preferem os métodos numéricos (transformados em algoritmos computacionais rodando em um computador bem rápido – os modelos matemáticos) a uma análise mais detalhada e reflexiva sobre a teoria que embasa esses modelos. Ou ainda mais alienante: Eles acreditam nos resultados desses modelos matemáticos como se fosse a verdade mais precisa, transformando os seus resultados em leis, outorgas, pareceres e outras decisões de gestão.

Poucos se lembram que para um modelo matemático ter alguma validade, a quantidade de informação necessária para calibrar esse modelo é, normalmente, imensa, e raramente está disponível. Mais ainda, todo modelo tem seus limites de aplicação, uma “escala” em que pode fornecer alguma informação útil, mas isso passa desapercebido aos engenheiros, porque na sua paixão pelos números aparentemente precisos produzidos pelos modelos computacionais (e seus gráficos e mapas derivados), esses profissionais vem perdendo a sensibilidade para o tamanho, a escala, a abrangência e o real significado daqueles resultados produzidos.

Mas tem ainda um aspecto mais perturbador: uma vez que os modelos matemáticos têm a pretensão de reproduzir a realidade que, no caso da gestão de recursos hídricos, envolve muitas variáveis de decisão essencialmente políticas (como a definição de prioridades para o abastecimento dos diversos usos da água em uma bacia hidrográfica, por exemplo), essas questões mais complexas, demoradas, confusas e acinzentadas são tratadas como “perturbadoras” ou “distorções” de um processo de cálculo que, caso não existissem, seria perfeito.

Talvez isso seja uma distorção que vem desde o berço, ou desde a escola de engenharia, onde os engenheiros são instruídos para solucionar problemas. No entanto, gestão não é solução. Gestão existe para dar conta daquilo que não pode ser solucionado, dos desequilíbrios e situações dinâmicas em que os objetivos são conflitantes, como o desenvolvimento de uma região e a poluição dos mananciais que abastecem aquela região causada pelo desenvolvimento, para ser simples e conciso.

Tem mais: os engenheiros sabem que o mundo é complexo. Mas os modelos matemáticos trazem consigo uma promessa não realizada de que essa complexidade poderia ser abrangida por um número muito grande de equações não compreensíveis para a maioria dos mortais e alguns algoritmos misteriosos com nomes mágicos (como Out-of-Kilter, por exemplo). Com isso os pobres engenheiros se iludem, assim como o cara que quer pegar a Juliana Paes e acha que tomando mais cerveja vai conseguir isso.

E pra completar, a pérola: discutíamos a validade da utilização de “coeficientes de decaimento da DBO” (poluição orgânica) em um modelo que opera com vazões médias mensais. Minha posição é que isso era simplesmente um chute – obviamente existiria um conflito entre o processo físico de dispersão/oxidação e a racionalidade matemática do modelo. Como isso ocorre em uma escala temporal menor e são inúmeros os fatores envolvidos, sem uma calibragem adequada (e dados, monitoramento, tempo, estudos, etc…), a estimativa do decaimento poderia levar a resultados muito errados sobre a real situação da qualidade de água de um trecho de rio. A inclusão de um maior número de “fatores” seria uma ilusão sobre a precisão do modelo.

A poética resposta que eu ouvi, de um engenheiro: “… mas vivemos de ilusões!…”

Claro, não são todos os engenheiros que fazem assim. Só os que eu conheço.

R Ramina