E viva o “Velho Chico”!!!

Assoreamento do Rio São Francisco 09/nov/2014
Assoreamento do Rio São Francisco 09/nov/2014
Braço seco de um afluente do São Fracisco - 09/nov/2014
Braço seco de um afluente do São Francisco – 09/nov/2014

Eu peço desculpas aos que ainda me seguem porque eu realmente sou um blogueiro muito infrequente. Mas é assim que eu sou: eu faço tanta coisa que não tenho muito tempo pra escrever sobre o que eu faço. Ao menos ultimamente, que meu trabalho me levou ao oeste da Bahia e ao Velho Chico. Fascinante aprendizado!

Mas eu preciso contar alguma coisa sobre ele, e vou fazendo na medida em que eu elaboro meu segundo relatório para o CBHSF – Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

Claro que não vou contar o que eu estou escrevendo! Só depois de publicado… Mas vou contando o que eu não estou escrevendo, ou o que alguém escreveu e que me chama a atenção. Meu foco não é só sobre o Velho Chico, mas sim sobre os conflitos dos diversos usuários das águas do São Francisco, ou melhor, dos seus recursos hídricos (não são a mesma coisa e depois eu explico porquê).

Mas vou começar por uma percepção muito interessante, e que tem a ver com a atual tendência que se observa na opinião dos técnicos do setor de recursos hídricos brasileiro que é a de “necessitamos de mais e maiores reservatórios!”.

Não discordando, em princípio, dessa afirmação, eu gostaria de chamar a atenção para o fato de que já dispomos de muito mais capacidade de regularização de vazões nas próprias hidrelétricas existentes: os “volumes mortos”. Como o caso recente de São Paulo o demonstrou, essas “reservas estratégicas” (utilizarei aqui o eufemismo paulista só pra evitar a referência mórbida) podem se tornar essenciais em períodos de extrema seca que, diga-se de passagem, começam a mostrar a cara com mais frequência temporal e espacial do que se esperava.

“Mas isso é impensável!” diriam alguns dos meus amigos eletro-chatos. “É óbvio que com maior volume a capacidade de regularização também seria maior”, continuariam eles, recordando das aulas do Prof. Gomide, “porém, caso esse limite seja retirado, não só teríamos maior risco de interromper a geração como também do reservatório demorar mais a encher, atrasando a geração.”

Pois então, aí está o dilema colocado: podemos ter maior capacidade de regularização utilizando o volume morto, gerando benefícios para quase todos os usos múltiplos de jusante, porém correremos um risco um pouco maior do que já estamos correndo de ficar sem energia naquela usina. Visto assim, temos um conflito clássico entre todos os usos do reservatório e um uso dominante, que é o de geração hidrelétrica. Como abordar o conflito? Compensação econômica? Determinação de prioridades de abastecimento? Regras rígidas e penalidades para quem as quebrar?

Será que não temos outras possibilidades de abordar esse conflito, de tal maneira que ele possa ser superado e não somente negociado? Que tal estas: Na medida em que energia passe a se tornar mais “cara”, uma vez que vai desaparecer por certos períodos em que o preço estaria alto no mercado aberto (secas), poderiam surgir como viáveis outras alternativas energéticas. Ou o incentivo a novos hábitos de consumo de energia, mais adaptados ao regime do Velho Chico, com suas cheias e secas.

Será que não são de outra ordem as direções que devem então ser tomadas para maximizar os benefícios dos recursos hídricos para todos os usuários?

Para mim, é essencial redirecionar o atual modelo energético em geral, e a matriz energética na bacia do rio São Francisco em particular, em função da extrema dependência que todo o nordeste tem, e continuará tendo, do seu regime hidrológico, tanto para a geração de energia como para todos os outros usos, tradicionais ou não. As águas dos “volumes mortos” serão cada vez mais “reservas estratégicas” na medida em que as demandas aumentam e as vazões naturais, na melhor das hipóteses, permanecem as mesmas.

É muito bonito e emocionante vendo todo mundo defendendo o Velho Chico, e sofrendo com seu descaso. Mas eu gostaria de saber quantos desses pensam no Velho Chico quando ligam seu ar condicionado, ou seu pivô central de irrigação. Quem tem bancado isso tudo são as águas do Velho Chico, sua biodiversidade e as comunidades tradicionais que dependiam dele.

Rodolpho Ramina

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