O Conflito sobre as Águas do Rio Paraíba do Sul

Prezados;

Esse assunto já vem sendo discutido há décadas. O saudoso professor da USP Flávio Terra Barth, um dos cérebros que ajudaram a construir o sistema de gestão de recursos hídricos do país, teria hoje muito a contribuir. Certamente, será deste conflito de interesses que sairão as novas diretrizes para a gestão de recursos hídricos, e espero que todos nós nos beneficiemos muito com isso.

No entanto, cabe aqui uma pergunta, velha também, que insiste em não calar: Por que diabos o governo de São Paulo continua ressucitando essa transposição, se o rio Juquiá (bacia do rio Ribeira, ao sul da capital) tem águas mais limpas, também atenderia esses volumes e se encontra totalmente dentro do território paulista, evitando conflitos inter-estaduais?

Eu tenho aqui duas respostas, mas são parciais (no sentido de incompletas):

1. a primeira tem raízes na política e é a mais óbvia – a estratégia visaria distrair um pouco a atenção da paulicéia dos escândalos dos sucessivos governos estaduais (re. Alston x Eletropaulo, ou Siemens x Metrô) inflando um pouco o sentimento de independência paulita (“Duco Non Ducor” – determino, não sou determinado, como no brasão do estado) justamente em uma hora que o fantasma do racionamento de água paira sobre as suas cabeças.

2. A bacia do rio Ribeira tem dono, e o governo paulista não quer (e nunca quis, ou não conseguiu, sei lá) contrariar esse dono. O dono é o Grupo Votorantin, um dos maiores conglomerados industriais paulistas, dirigido pela família do finado Ermírio de Morais, com foco na produção de quase a totalidade do cimento e grande parte do alumínio do país, entre outras coisas. O grupo possui, já há muitos anos, umas 18 barragens na região, e só não fez outras porque a reação tanto do governo do Estado do Paraná como de ambientalistas seguraram os projetos. Todas essas barragens tem finalidade única de geração de energia elétrica (segundo me consta). Quase todas são barragens de concreto, cujos projetos possuem uma racionalidade técnica questionável e avaliação ambiental quase inócua, pra dizer o mínimo. Muitas já tiveram problemas de deslizamento e de vazamento, dadas as condições geológicas do vale do Ribeira, e os impactos sobre o patrimônio espeleológico da região foram imensos.

O reacendimento da disputa sobre os recursos hídricos do Paraíba do Sul, ao meu ver, tem um cheiro de “Las Malvinas Son Argentinas”: é mais fácil chamar a atenção para uma briga com o vizinho (que, de quebra, é de um outro partido político, e as eleições estão aí) do que arrumar as mazelas já quase centenárias no nosso próprio quintal.

Acho importante que nós, técnicos do setor de recursos hídricos, mantenhamos a cabeça fria. Em briga de elefantes quem se machuca é a grama.

Muita calma nessa hora.

Abraços a todos.

Rodolpho Ramina

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