Racionamento: política, economia ou hemorróidas?

A recente crise hídrica da cidade de São Paulo (como vem sendo apelidado o fiasco do sistema de gestão de recursos hídricos paulista face a um período crítico mais crítico) traz a tona o fantasma do racionamento. E no Brasil, quando falamos de seca estamos falando do fantasma do racionamento de água e de energia elétrica.

No dia 12/jan/2015 o gov. reeleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, deu uma entrevista na Band News a respeito desses e de outros assuntos espinhosos que devem pautar a sua nova gestão. (http://noticias.band.uol.com.br/brasil/noticia/100000730006/alckmin-defende-sabesp-e-culpa-seca-por-crise-hidrica.html).

Uma parte das questões procuraram estabelecer uma relação entre a campanha política e o fato de não ter havido uma divulgação explícita sobre racionamento, embora estivessem ocorrendo práticas de racionamento de forma não-explícita, como o desabastecimento de alguns bairros durante dias e cortes de água em algumas regiões.

Independentemente do que tenha dito o governador Alckmin, certamente o racionamento tem um aspecto político importante – o povo não gosta de ser contrariado em seus hábitos. Principalmente o povo brasileiro, tutelado por governos paternalistas e assistencialistas, e mais especialmente ainda os paulistas, que se acham o centro do hemisfério sul, só perdendo em importância para Miami, New York e Dallas, não necessariamente nessa ordem. A velha filosofia do “non ducor, duco” (Latim: “não sou determinado, determino”).

non ducor duco
non ducor duco

Mas eu vejo que esse impacto político negativo é controlável, ou seja, secundário. Como demonstração vemos o resultado das eleições para o governo de São Paulo, onde o Alckmin foi reeleito com 51,37% dos votos mesmo dentro da maior “crise hídrica”que o estado já viveu. E ainda sai dizendo que a culpa foi da seca e todo mundo acredita.

Há um outro aspecto mais fundamental e determinante para que todo o “sistema” trema diante do fantasma do racionamento, e este tem origem econômica. Na teoria econômica existe um conceito chamado de “elasticidade da demanda”, que basicamente indica quanto da demanda por um determinado bem ou serviço aumenta ou diminui com o decréscimo ou acréscimo do seu preço, respectivamente. Reflete o senso comum de que quanto mais alto o custo de algo, menos gente vai estar disposta a pagar. E vice-versa. E esse custo não significa somente o preço de algo, mas também pode indicar a dificuldade em consegui-lo – racionamento pode ser um caso.

Quando olhamos o que aconteceu com o sistema elétrico interligado nacional (SIN) nos últimos 20 anos (ver figura aí em baixo), vemos que a carga total, que vinha crescendo desde 1994 a uma taxa média de 4,7 % ao ano, tem uma queda súbita em 2001 em torno 8%, fruto do racionamento. Em relação ao que poderia ser projetado então (linha vermelha), 2001 foi um buraco de mais de 13%.

carga sistema elétrico

Mas o interessante é que a carga do sistema nunca mais voltou à projeção dos anos 90, mesmo acelerando seu ritmo na primeira década de 2000 (linha verde). Pelas minhas projeções, essa recuperação só seria alcançada entre 2018 e 2019. Mas veio a crise de 2008 e, com a desaceleração econômica (não racionamento como tal), a projeção atrasou novamente (linha cor de uva terci), fazendo com que a tendência do século passado só possa a vir ser alcançada entre 2021 e 2022.

O que aconteceu? substituição, racionalização, economia. No racionamento de 2001 muitas pessoas mudaram sua matriz energética particular, fugindo dos chuveiros elétricos e investindo em aquecedores a gás. A energia solar passou a ser utilizada com mais intensidade, assim como lâmpadas mais eficientes. Cortou-se desperdícios, assim como na crise de 2008. E com isso o atraso na entrada de novas hidrelétricas não tem sido tão limitante.

Racionamento, racionalização ou raciocínio tem a mesma raiz: pensar! Caiu a ficha! Esse é o único antídoto à crise hídrica e energética. Não há no mundo tanto potencial hidrelétrico como aquele que será necessário se não soubermos administrar nosso consumo particular, individual. Enquanto formos dependentes do “sistemão” o que teremos é mais hidrelétricas até não sobrar qualquer rio, depois mais térmicas a combustível fóssil até não sobrar mais ar puro e depois, finalmente, a nuclear, até não sobrar mais ninguém. E os “normais” vão continuar achando que tudo é “normal”. Isso demonstra também porque, afinal, o racionamento é tão abominado e tão pouco se faz pela gestão da demanda, tanto de água como de energia.

Eu tinha uma saudoso colega que dizia: “Quero que se f… o mico leão dourado – prefiro água quente no bidê pra lavar minhas hemorróidas”. Enquanto não descobrirmos novas maneiras de lavar nossas hemorróidas com água quente, quem vai pagar por isso será a biodiversidade em extinção, as comunidades indígenas desaparecendo, cidades inchando, cartéis negociando nossa dependência, políticos heróis e peixinhos com três olhos.

Abraços.

R Ramina