putaria ou picaretagem?

Primeiro, já vou pedindo desculpas aos meus leitores mais sensíveis pelo aparentemente ofensivo título deste post. Mas eu explico: estas últimas semanas o tema que tem vindo a tona em diversas reuniões com colegas vem sendo a “sacanagem” (menos ofensivo, mas ainda assim…) em que se transformou a gestão dos investimentos em infraestrutura neste país. O termo “putaria” (sic) faz referência àquelas casas de tolerância tão bem frequentadas pela fina casta de políticos, senadores, membros do Tribunal de Contas (alguns são até donos), donos de empreiteiras, fiscais, etc. em que tudo rola. Também conhecida como a “Casa da Mãe Joana”, se caracteriza pelo ambiente cordial, libertário e isolado dos olhares curiosos em que o que vale é quem tem mais grana pra se deliciar com os melhores pratos, e todas as outras regras simplesmente se dobram a esse critério. Esses locais foram muito bem descritos por Jorge Amado em diversas de suas obras.

Mas às vezes a casa cai. O recente escândalo da Siemens é isso: uma das maiores empresas multinacionais ligadas a setores importantes, e que participou intimamente na construção de nossa infraestrutura de geração de energia, saúde, transportes, comunicações, etc. vem agora delatar um conchavo de empreiteiras e fornecedores para as obras do metrô paulista (da qual ela sempre fez parte…) em troco de uma “pena mais leve” ??? muito estranho… E, ao mesmo tempo, centenas de milhares saem às ruas chamando a atenção para a decadência desse mesmo sistema de transporte, e o de saúde, e o de comunicação que, mesmo com toda essa putaria (de novo… é inevitável) ainda assim são um descalabro.

Alguns colegas, virgens vestais, ainda se chocam com a prática história da formação de cartéis para repartir as gordas licitações de obras públicas como as do metrô. Outros já dizem que sem essa sacanagem não rola nada. Até no Vaticano! quantos milhares de Euros na batina do cardeal? E aqui na cueca do pastor! Somos todos cristãos, afinal. Um outro colega, este diretor de negócios de uma conhecida empresa de projetos paulista, afirma peremptoriamente: A putaria sempre existiu. Existiria desde antes do Império Romano.

Tendo vivido meus quase 40 anos (já?) de vida profissional envolvido com projetos de infraestrutura, o que eu tenho a dizer é que sempre foi assim. Ou quase. Alguém um dia inventou esse mito da separação entre a coisa pública e a privada, mas isso foi para enganar trouxa e criar mais cúmplices. O que sustenta as grandes empresas (e os grandes exércitos e as grandes indústrias etc.) é o investimento público. E pra quem pensa que não há interferência privada direta em como esses investimentos são “distribuídos” recomendo que pare de comer cogumelos, Alice!

Mas há que se chamar a atenção para um fato que passa quase desapercebido: putaria (de novo…) não é sinônimo de picaretagem, ou ao menos não era até um passado próximo. Mesmo as putarias (agora que se lixe…) que vimos acontecer durante a ditadura militar no Brasil, que fizeram as fortunas de Sebastiões Camargos, Andrades Gutierrez, Cecílios Almeidas, Siemens, Brown Boveris, Voiths, GEs, etc. etc. elas não eliminaram a necessidade de se fazer alguma coisa que prestasse. Tinha pouca margem para a picaretagem, porque muito se investiu em competência técnica – os milicos tinham que dar uma resposta, afinal eles se julgaram melhores que os outros e assumiram o prostíbulo (Brasília?). De outro modo como explicar o sucesso de uma Embraer, de uma Vale, Petrobrás e Eletrobrás? Ou de uma Copel, ou do sistema de transporte de Curitiba, baseado em um ônibus e num sistema criativo, pra ficar mais perto de casa?

O fato é que agora só tem putaria (… é mais forte que eu). Até o quarto escalão, ou bem mais abaixo. Cada um quer o seu, pouco se importando com o objeto desses contratos fantásticos. Políticos precisam de orçamentos fabulosos para financiar suas megacampanhas. Eikes precisam estar no topo da Forbes. E os jovens se esquecem que tem que aprender a fazer alguma coisa que preste. Mas preferem ser chamados de executivos ou diretores, ou governadores; ofuscados pelo brilho da purpurina e o cheiro de lança perfume argentino (ou do pó boliviano) querem a sua parte – afinal, sou filho do papai, e também cheguei lá! (sobe a bandeira a meio pau…).

Pois é. E, enquanto isso, o povo se junta nas ruas, percorrendo redes desconhecidas e invisíveis aos olhos embotados dos clientes dos puteiros. E a grande Siemens resolve dedurar os antigos “cumpanheiros” de máfia. A caterva do PT foi mais solidária no mensalão…

Crianças, escutem: Um dia a casa cai.

R Ramina (imbuído do espírito das ruas)