sobre a ilusão dos modelos matemáticos

Esta vida de consultor traz muitas pérolas. Esta semana, durante uma atividade que não faço há muito tempo (ter aulas em um curso sobre modelos matemáticos), veio à baila um debate muito interessante: a validade (ou até a utilidade) dos modelos de qualidade de água para a gestão dos recursos hídricos.

Tá certo: eu sou briguento e turrão, e na medida em que o tempo passa isso vem se aprofundando. Mas tem coisas que não podemos deixar passar, e uma delas é a maneira como os engenheiros estão distorcendo a sua percepção sobre problemas de gestão de recursos hídricos causada, ao meu ver, por uma ilusão, ou melhor, por uma miragem.

Engenheiros tem uma tendência a acreditar em números, e quanto mais desses números, melhor. Eu posso falar porque sou um engenheiro, meu pai é engenheiro e fundei, trabalhei e convivi com empresas de engenharia toda a minha vida profissional. E uso modelos matemáticos. Como são muito pragmáticos, os engenheiros preferem os métodos numéricos (transformados em algoritmos computacionais rodando em um computador bem rápido – os modelos matemáticos) a uma análise mais detalhada e reflexiva sobre a teoria que embasa esses modelos. Ou ainda mais alienante: Eles acreditam nos resultados desses modelos matemáticos como se fosse a verdade mais precisa, transformando os seus resultados em leis, outorgas, pareceres e outras decisões de gestão.

Poucos se lembram que para um modelo matemático ter alguma validade, a quantidade de informação necessária para calibrar esse modelo é, normalmente, imensa, e raramente está disponível. Mais ainda, todo modelo tem seus limites de aplicação, uma “escala” em que pode fornecer alguma informação útil, mas isso passa desapercebido aos engenheiros, porque na sua paixão pelos números aparentemente precisos produzidos pelos modelos computacionais (e seus gráficos e mapas derivados), esses profissionais vem perdendo a sensibilidade para o tamanho, a escala, a abrangência e o real significado daqueles resultados produzidos.

Mas tem ainda um aspecto mais perturbador: uma vez que os modelos matemáticos têm a pretensão de reproduzir a realidade que, no caso da gestão de recursos hídricos, envolve muitas variáveis de decisão essencialmente políticas (como a definição de prioridades para o abastecimento dos diversos usos da água em uma bacia hidrográfica, por exemplo), essas questões mais complexas, demoradas, confusas e acinzentadas são tratadas como “perturbadoras” ou “distorções” de um processo de cálculo que, caso não existissem, seria perfeito.

Talvez isso seja uma distorção que vem desde o berço, ou desde a escola de engenharia, onde os engenheiros são instruídos para solucionar problemas. No entanto, gestão não é solução. Gestão existe para dar conta daquilo que não pode ser solucionado, dos desequilíbrios e situações dinâmicas em que os objetivos são conflitantes, como o desenvolvimento de uma região e a poluição dos mananciais que abastecem aquela região causada pelo desenvolvimento, para ser simples e conciso.

Tem mais: os engenheiros sabem que o mundo é complexo. Mas os modelos matemáticos trazem consigo uma promessa não realizada de que essa complexidade poderia ser abrangida por um número muito grande de equações não compreensíveis para a maioria dos mortais e alguns algoritmos misteriosos com nomes mágicos (como Out-of-Kilter, por exemplo). Com isso os pobres engenheiros se iludem, assim como o cara que quer pegar a Juliana Paes e acha que tomando mais cerveja vai conseguir isso.

E pra completar, a pérola: discutíamos a validade da utilização de “coeficientes de decaimento da DBO” (poluição orgânica) em um modelo que opera com vazões médias mensais. Minha posição é que isso era simplesmente um chute – obviamente existiria um conflito entre o processo físico de dispersão/oxidação e a racionalidade matemática do modelo. Como isso ocorre em uma escala temporal menor e são inúmeros os fatores envolvidos, sem uma calibragem adequada (e dados, monitoramento, tempo, estudos, etc…), a estimativa do decaimento poderia levar a resultados muito errados sobre a real situação da qualidade de água de um trecho de rio. A inclusão de um maior número de “fatores” seria uma ilusão sobre a precisão do modelo.

A poética resposta que eu ouvi, de um engenheiro: “… mas vivemos de ilusões!…”

Claro, não são todos os engenheiros que fazem assim. Só os que eu conheço.

R Ramina