Mais sobre a crise hídrica

Recentemente foi postado na lista da ABRH – Associação Brasileira de Recursos Hídricos um link que mostra muito sobre a crise hídrica em São Paulo. O post foi feito pela Roberta Baptista Rodrigues e o link é http://www.envolverde.com.br/especial-agua/faltou-agua-entenda-mais/

Eu fiquei indignado, não só com o posicionamento do governador de São Paulo (embora eu já saiba que daquele mato não sai coelho), mas com a total ausência de posicionamento de entidades profissionais como a USP e a própria ABRH. E resolvi escrever um comentário no site do vídeo, o qual reproduzo abaixo.

Abraços


 

Colegas;

Esse link enviado pela Roberta (valeu, Roberta!) mostra, em detalhes, em que ponto chegamos na gestão dos recursos hídricos em São Paulo. Acho que isso coloca em evidência uma falência múltipla, onde se inclui o governo estadual e sua concessionária tão exemplar (segundo o Francisco Lobato), mas também, e principalmente, a academia e as associações profissionais, como a USP e a ABRH que tanto tem feito para o avanço da gestão de recursos hídricos.

Embora no caso de São Paulo a omissão seja escancarada, gritante e até humilhante, o caso do rio São Francisco não tem sido menos crítico e também aponta para uma omissão imperial tanto por parte dos governos de Minas, Bahia e governo federal, como por parte do setor elétrico (ONS e CHESF) .

Não consigo acreditar, ou até admitir, que nenhuma das nossas instituições acadêmicas e profissional tenha ainda se manifestado, emitido um posicionamento, ou qualquer outra coisa digna de uma entidade acadêmica ou profissional diretamente relacionada com a crise e também com sua possível solução.

Como se não bastasse o desrespeito evidente à legislação vigente, o descaso com as recomendações de técnicos e a já tão banal mentira deslavada dos políticos da vez, temos ainda um silêncio da USP e da ABRH que não só as tornam cúmplices do que ocorreu, como também as conduzem mais e mais à total irrelevância no que diz respeito a essa questão.

Rodolpho Ramina

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Racionamento: política, economia ou hemorróidas?

A recente crise hídrica da cidade de São Paulo (como vem sendo apelidado o fiasco do sistema de gestão de recursos hídricos paulista face a um período crítico mais crítico) traz a tona o fantasma do racionamento. E no Brasil, quando falamos de seca estamos falando do fantasma do racionamento de água e de energia elétrica.

No dia 12/jan/2015 o gov. reeleito de São Paulo, Geraldo Alckmin, deu uma entrevista na Band News a respeito desses e de outros assuntos espinhosos que devem pautar a sua nova gestão. (http://noticias.band.uol.com.br/brasil/noticia/100000730006/alckmin-defende-sabesp-e-culpa-seca-por-crise-hidrica.html).

Uma parte das questões procuraram estabelecer uma relação entre a campanha política e o fato de não ter havido uma divulgação explícita sobre racionamento, embora estivessem ocorrendo práticas de racionamento de forma não-explícita, como o desabastecimento de alguns bairros durante dias e cortes de água em algumas regiões.

Independentemente do que tenha dito o governador Alckmin, certamente o racionamento tem um aspecto político importante – o povo não gosta de ser contrariado em seus hábitos. Principalmente o povo brasileiro, tutelado por governos paternalistas e assistencialistas, e mais especialmente ainda os paulistas, que se acham o centro do hemisfério sul, só perdendo em importância para Miami, New York e Dallas, não necessariamente nessa ordem. A velha filosofia do “non ducor, duco” (Latim: “não sou determinado, determino”).

non ducor duco

non ducor duco

Mas eu vejo que esse impacto político negativo é controlável, ou seja, secundário. Como demonstração vemos o resultado das eleições para o governo de São Paulo, onde o Alckmin foi reeleito com 51,37% dos votos mesmo dentro da maior “crise hídrica”que o estado já viveu. E ainda sai dizendo que a culpa foi da seca e todo mundo acredita.

Há um outro aspecto mais fundamental e determinante para que todo o “sistema” trema diante do fantasma do racionamento, e este tem origem econômica. Na teoria econômica existe um conceito chamado de “elasticidade da demanda”, que basicamente indica quanto da demanda por um determinado bem ou serviço aumenta ou diminui com o decréscimo ou acréscimo do seu preço, respectivamente. Reflete o senso comum de que quanto mais alto o custo de algo, menos gente vai estar disposta a pagar. E vice-versa. E esse custo não significa somente o preço de algo, mas também pode indicar a dificuldade em consegui-lo – racionamento pode ser um caso.

Quando olhamos o que aconteceu com o sistema elétrico interligado nacional (SIN) nos últimos 20 anos (ver figura aí em baixo), vemos que a carga total, que vinha crescendo desde 1994 a uma taxa média de 4,7 % ao ano, tem uma queda súbita em 2001 em torno 8%, fruto do racionamento. Em relação ao que poderia ser projetado então (linha vermelha), 2001 foi um buraco de mais de 13%.

carga sistema elétrico

Mas o interessante é que a carga do sistema nunca mais voltou à projeção dos anos 90, mesmo acelerando seu ritmo na primeira década de 2000 (linha verde). Pelas minhas projeções, essa recuperação só seria alcançada entre 2018 e 2019. Mas veio a crise de 2008 e, com a desaceleração econômica (não racionamento como tal), a projeção atrasou novamente (linha cor de uva terci), fazendo com que a tendência do século passado só possa a vir ser alcançada entre 2021 e 2022.

O que aconteceu? substituição, racionalização, economia. No racionamento de 2001 muitas pessoas mudaram sua matriz energética particular, fugindo dos chuveiros elétricos e investindo em aquecedores a gás. A energia solar passou a ser utilizada com mais intensidade, assim como lâmpadas mais eficientes. Cortou-se desperdícios, assim como na crise de 2008. E com isso o atraso na entrada de novas hidrelétricas não tem sido tão limitante.

Racionamento, racionalização ou raciocínio tem a mesma raiz: pensar! Caiu a ficha! Esse é o único antídoto à crise hídrica e energética. Não há no mundo tanto potencial hidrelétrico como aquele que será necessário se não soubermos administrar nosso consumo particular, individual. Enquanto formos dependentes do “sistemão” o que teremos é mais hidrelétricas até não sobrar qualquer rio, depois mais térmicas a combustível fóssil até não sobrar mais ar puro e depois, finalmente, a nuclear, até não sobrar mais ninguém. E os “normais” vão continuar achando que tudo é “normal”. Isso demonstra também porque, afinal, o racionamento é tão abominado e tão pouco se faz pela gestão da demanda, tanto de água como de energia.

Eu tinha uma saudoso colega que dizia: “Quero que se f… o mico leão dourado – prefiro água quente no bidê pra lavar minhas hemorróidas”. Enquanto não descobrirmos novas maneiras de lavar nossas hemorróidas com água quente, quem vai pagar por isso será a biodiversidade em extinção, as comunidades indígenas desaparecendo, cidades inchando, cartéis negociando nossa dependência, políticos heróis e peixinhos com três olhos.

Abraços.

R Ramina

 

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E viva o “Velho Chico”!!!

Assoreamento do Rio São Francisco 09/nov/2014

Assoreamento do Rio São Francisco 09/nov/2014

Braço seco de um afluente do São Fracisco - 09/nov/2014

Braço seco de um afluente do São Francisco – 09/nov/2014

Eu peço desculpas aos que ainda me seguem porque eu realmente sou um blogueiro muito infrequente. Mas é assim que eu sou: eu faço tanta coisa que não tenho muito tempo pra escrever sobre o que eu faço. Ao menos ultimamente, que meu trabalho me levou ao oeste da Bahia e ao Velho Chico. Fascinante aprendizado!

Mas eu preciso contar alguma coisa sobre ele, e vou fazendo na medida em que eu elaboro meu segundo relatório para o CBHSF – Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco.

Claro que não vou contar o que eu estou escrevendo! Só depois de publicado… Mas vou contando o que eu não estou escrevendo, ou o que alguém escreveu e que me chama a atenção. Meu foco não é só sobre o Velho Chico, mas sim sobre os conflitos dos diversos usuários das águas do São Francisco, ou melhor, dos seus recursos hídricos (não são a mesma coisa e depois eu explico porquê).

Mas vou começar por uma percepção muito interessante, e que tem a ver com a atual tendência que se observa na opinião dos técnicos do setor de recursos hídricos brasileiro que é a de “necessitamos de mais e maiores reservatórios!”.

Não discordando, em princípio, dessa afirmação, eu gostaria de chamar a atenção para o fato de que já dispomos de muito mais capacidade de regularização de vazões nas próprias hidrelétricas existentes: os “volumes mortos”. Como o caso recente de São Paulo o demonstrou, essas “reservas estratégicas” (utilizarei aqui o eufemismo paulista só pra evitar a referência mórbida) podem se tornar essenciais em períodos de extrema seca que, diga-se de passagem, começam a mostrar a cara com mais frequência temporal e espacial do que se esperava.

“Mas isso é impensável!” diriam alguns dos meus amigos eletro-chatos. “É óbvio que com maior volume a capacidade de regularização também seria maior”, continuariam eles, recordando das aulas do Prof. Gomide, “porém, caso esse limite seja retirado, não só teríamos maior risco de interromper a geração como também do reservatório demorar mais a encher, atrasando a geração.”

Pois então, aí está o dilema colocado: podemos ter maior capacidade de regularização utilizando o volume morto, gerando benefícios para quase todos os usos múltiplos de jusante, porém correremos um risco um pouco maior do que já estamos correndo de ficar sem energia naquela usina. Visto assim, temos um conflito clássico entre todos os usos do reservatório e um uso dominante, que é o de geração hidrelétrica. Como abordar o conflito? Compensação econômica? Determinação de prioridades de abastecimento? Regras rígidas e penalidades para quem as quebrar?

Será que não temos outras possibilidades de abordar esse conflito, de tal maneira que ele possa ser superado e não somente negociado? Que tal estas: Na medida em que energia passe a se tornar mais “cara”, uma vez que vai desaparecer por certos períodos em que o preço estaria alto no mercado aberto (secas), poderiam surgir como viáveis outras alternativas energéticas. Ou o incentivo a novos hábitos de consumo de energia, mais adaptados ao regime do Velho Chico, com suas cheias e secas.

Será que não são de outra ordem as direções que devem então ser tomadas para maximizar os benefícios dos recursos hídricos para todos os usuários?

Para mim, é essencial redirecionar o atual modelo energético em geral, e a matriz energética na bacia do rio São Francisco em particular, em função da extrema dependência que todo o nordeste tem, e continuará tendo, do seu regime hidrológico, tanto para a geração de energia como para todos os outros usos, tradicionais ou não. As águas dos “volumes mortos” serão cada vez mais “reservas estratégicas” na medida em que as demandas aumentam e as vazões naturais, na melhor das hipóteses, permanecem as mesmas.

É muito bonito e emocionante vendo todo mundo defendendo o Velho Chico, e sofrendo com seu descaso. Mas eu gostaria de saber quantos desses pensam no Velho Chico quando ligam seu ar condicionado, ou seu pivô central de irrigação. Quem tem bancado isso tudo são as águas do Velho Chico, sua biodiversidade e as comunidades tradicionais que dependiam dele.

Rodolpho Ramina

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Luis Eduardo Magalhães e Barreiras/BA

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pivôs de irrigação e canal de adução

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às vezes os pivôs ocupam toda a janela do avião, desenhando círculos na paisagem. Até onde a vista alcança

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Nosso instrumento de sobrevoo

 

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… até aonde a vista alcança…

Aqui estão algumas das quase 1.000 imagens de um sobrevôo que realizei hoje, saindo de Barreiras, BA e passando a 1000 metros sobre uma das principais áreas de expansão da fronteira agrícola do Brasil hoje.

Voei no Oeste da Bahia, nos grandes chapadões do cerrado baiano, a leste de Tocantins e do Jalapão. Sobre o Aquífero Urucuia, a caixa d’água do rio São Francisco e responsável por o manter perene durante as secas, mesmo atravessando o semi-árido.

Lá em cima dos chapadões, pivôs de irrigação. Medimos. Com um diâmetro em torno de 1.250 m, eles chegam a ter 125 hectares cada. Há centenas deles. Talvez mais de mil. As imagens de satélite de 2012 mostram uns 320 mil hectares com eles em todo o oeste baiano.

Pivôs de irrigação usam muita água. Algumas vezes vemos as veredas transformadas em reservatórios. Na maior parte das vezes não vemos nada, a água vem do subsolo.

Há indícios (e isto eu vou mostrar em um outro post) de que o regime de vazões do rio São Francisco tem mudado profundamente desde a virada do século. Pra pior. As secas estão mais pronunciadas, e este ano é um record em suas baixas vazões. (não é só em São Paulo).

Será que há uma relação entre essas coisas?

Minha viagem me trouxe pelo norte de Goiás e do DF, pela hidrelétrica de Serra da Mesa, no Tocantins, e depois nas bacias dos rios das Almas e do Paranã, ambos afluentes do Tocantins.

O reservatório de Serra da Mesa está com menos de 30% da sua capacidade. O rio das Almas está parado, fedido e cheio de mosquitos. O Paranã está baixo, mas fluindo.

Reservatório da Usina de Serra da Mesa, no rio Tocantins, com menos de 30% da capacidade.

Reservatório da Usina de Serra da Mesa, no rio Tocantins, com menos de 30% da capacidade.

Rio São Francisco na seca. Bancos de areia ao longo de todo o trecho sobrevoado, até Barra.

Rio São Francisco na seca. Bancos de areia ao longo de todo o trecho sobrevoado, até Barra.

Hoje estou em Barreiras, depois do sobrevôo. Amanhã vamos pra Santa Maria da Vitória. Me acompanham dois colegas, Andrei Mora e Luis Gustavo Christoff.

Vou postando as coisas na medida em que eu conseguir parar e escrever. E entender. Tem tanta coisa pra mostrar e comentar que essa é minha maior dificuldade: não sei por onde começar.

Imagens são muitas. Paisagens lindíssimas. Vou selecionando e postando. Dá pra fazer isto até o fim do ano… ou até o fim da vida!

 

Abraços.

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Brasília

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Preparando a saída de Brasília.

Ontem fiquei de contar a finalidade desta viagem. Aqui vai uma breve introdução, porque daqui a pouco saio de Brasília em direção a Alto Paraíso de Goiás, nossa primeira parada. Meu colega Andrei Mora vai comigo e já está quase chegando.

Estou envolvido com diversos Planos de Recursos Hídricos na bacia do Rio São Francisco, e há indícios (pra ser breve) de que a crise hídrica lá tem algo a ver com a redução das vazões naturais em um trecho específico da grande bacia do São Francisco: o Oeste da Bahia, o famoso aquífero Urucuia. Acredita-se que esta “caixa d’água” subterrânea é a responsável por manter o Velho Chico fluindo mesmo nas maiores secas, mesmo cruzando o semiárido, e mesmo tendo sido utilizado para inúmeras finalidades nos últimos 300 anos.

Acontece que nos últimos dois anos as vazões diminuíram muito. Quando se olha o registro histórico de vazões, nota-se que a tendência de sumiço da água começa a ser percebida já n o final do século passado, mais ou menos em 1995. O que aconteceu?

Alguns dizem que são mudanças climáticas. Eu acho que tem outra coisa acontecendo – uso intensivo. Lá no cerrado baiano está uma das maiores fronteiras de expansão da agricultura irrigada da América do Sul.

E eu quero ver isso. Tenho que ver o tamanho do que está acontecendo pra poder sentir se a escala do impacto é correspondente ao tamanho das conseqüências, ou seja, da alteração do regime hidrológico do Velho Chico.

As implicações são múltiplas e muitíssimo importantes para todo o nordeste, talvez para o Brasil. E está acontecendo agora, em tempo real, neste momento.

Não posso deixar de ver.

R Ramina

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Indo pro sertão

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Esta semana retomo o blog pra fazer meu diário de viagem ao campo para o sertão da Bahia. Grandes Sertões: veredas. Minha leitura de Guimarães Rosa no século 21.
Estou indo pra ver no que a terra de Diadorim, Zé Bebelo e meu compadre Quelemelem se transformou, depois da expansão explosiva da agricultura, desde o fim do século passado.
Vou também tirar fotos. E pintar aquarelas. E embasar argumentos.
Estou no aeroporto de Salvador, indo pra Brasília. De lá parto, pelo norte de Goiás, subindo as chapadas em Posse e Luís Eduardo Magalhães.
Por quê? Isso eu conto depois, agora estou embarcando.
R Ramina

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O Conflito sobre as Águas do Rio Paraíba do Sul

Prezados;

Esse assunto já vem sendo discutido há décadas. O saudoso professor da USP Flávio Terra Barth, um dos cérebros que ajudaram a construir o sistema de gestão de recursos hídricos do país, teria hoje muito a contribuir. Certamente, será deste conflito de interesses que sairão as novas diretrizes para a gestão de recursos hídricos, e espero que todos nós nos beneficiemos muito com isso.

No entanto, cabe aqui uma pergunta, velha também, que insiste em não calar: Por que diabos o governo de São Paulo continua ressucitando essa transposição, se o rio Juquiá (bacia do rio Ribeira, ao sul da capital) tem águas mais limpas, também atenderia esses volumes e se encontra totalmente dentro do território paulista, evitando conflitos inter-estaduais?

Eu tenho aqui duas respostas, mas são parciais (no sentido de incompletas):

1. a primeira tem raízes na política e é a mais óbvia – a estratégia visaria distrair um pouco a atenção da paulicéia dos escândalos dos sucessivos governos estaduais (re. Alston x Eletropaulo, ou Siemens x Metrô) inflando um pouco o sentimento de independência paulita (“Duco Non Ducor” – determino, não sou determinado, como no brasão do estado) justamente em uma hora que o fantasma do racionamento de água paira sobre as suas cabeças.

2. A bacia do rio Ribeira tem dono, e o governo paulista não quer (e nunca quis, ou não conseguiu, sei lá) contrariar esse dono. O dono é o Grupo Votorantin, um dos maiores conglomerados industriais paulistas, dirigido pela família do finado Ermírio de Morais, com foco na produção de quase a totalidade do cimento e grande parte do alumínio do país, entre outras coisas. O grupo possui, já há muitos anos, umas 18 barragens na região, e só não fez outras porque a reação tanto do governo do Estado do Paraná como de ambientalistas seguraram os projetos. Todas essas barragens tem finalidade única de geração de energia elétrica (segundo me consta). Quase todas são barragens de concreto, cujos projetos possuem uma racionalidade técnica questionável e avaliação ambiental quase inócua, pra dizer o mínimo. Muitas já tiveram problemas de deslizamento e de vazamento, dadas as condições geológicas do vale do Ribeira, e os impactos sobre o patrimônio espeleológico da região foram imensos.

O reacendimento da disputa sobre os recursos hídricos do Paraíba do Sul, ao meu ver, tem um cheiro de “Las Malvinas Son Argentinas”: é mais fácil chamar a atenção para uma briga com o vizinho (que, de quebra, é de um outro partido político, e as eleições estão aí) do que arrumar as mazelas já quase centenárias no nosso próprio quintal.

Acho importante que nós, técnicos do setor de recursos hídricos, mantenhamos a cabeça fria. Em briga de elefantes quem se machuca é a grama.

Muita calma nessa hora.

Abraços a todos.

Rodolpho Ramina

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Sobre grandes reservatórios de grandes hidrelétricas

Mais alguma coisa que já foi publicada na lista da Associação Brasileira de Recursos Hídricos em 19/08/2013 sobre o assunto.

 

Caras (os);

Tenho acompanhado, com muita preocupação, a evolução da discussão em torno dessa questão sobre os reservatórios das hidrelétricas. Grande parte da minha vida profissional foi desenvolvida na construção das grandes hidrelétricas do rio Iguaçu, no PR, em Itaipu, nas hidrelétricas do rio Paranapanema e em algumas bem importantes em MG, como Emborcação. Também trabalhei em projetos menores, PCHs, etc. Eu conheço pessoalmente (e admiro) muitos dos engenheiros, técnicos e cientistas que trabalharam, desenharam e construíram essas obras. Foram meus professores, como o Prof. Gomide, a quem eu respeito muitíssimo.

No entanto, eu acho que há uma grande distorção nessa discussão sobre os grandes reservatórios como a única solução para o entrave de desenvolvimento do país. A questão vem sendo discutida como se fosse  uma alternativa tecnológica racional óbvia – ou grandes reservatórios ou termelétricas. Não vou me estender muito sobre essas questões, que são certamente complexas e profundas, porém, ao meu ver, a discussão vem padecendo de diversos males, que explorarei aqui brevemente:

1. A visão hidro x térmica como antagonistas é anacrônica. Ela vem de uma época em que não tínhamos a diversidade de possibilidades de geração de energia que temos atualmente – e não somente eletricidade (hidros, térmicas, eólicas, solares, biomassa, resíduos urbanos, etc..) nem a rede interligada que dispomos hoje. Com isso, a “rede” vem se transformando também numa alternativa cada vez mais importante para a garantia do fornecimento de energia, especialmente quando se consideram outras formas de energia que não somente a elétrica. Basta ver o que vem acontecendo na Europa já há anos – a questão não é tecnológica, mas sim de uma falta de visão mais adequada aos tempos atuais.

2. Uma segunda distorção, esta mais grave, é de ordem econômica e vem de um posicionamento oligopolista do setor energético (tanto elétrico como petróleo), que o caracteriza desde a sua criação, nos anos 50. Nos acostumamos a ver a questão energética brasileira como composta de “geradores” e “consumidores”. Uma coisa seria uma coisa, a outra coisa outra coisa, e essas coisas não se misturam, a não ser na necessária exceção à regra que são os autoprodutores. Pois bem. Apesar de tanta bomba contra, parece que agora estaríamos evoluindo para, finalmente, reconhecer que TODOS os consumidores teriam a possibilidade de gerar energia também, e os valores (da energia gerada e da consumida) poderiam ser equiparados. Claro, falta ainda rever os valores do “pedágio” cobrado pela transmissão. Essa distorção da estrutura do mercado, que privilegiou (e ainda privilegia, em grande medida) as grandes empresas estatais, talvez pudesse ser justificada no início da história do setor. Mas talvez hoje seja mais uma anacronia, impedindo o desenvolvimento de um importante mercado. A privatização só fez o oligopólio mudar de mãos, mas o corporativismo e a defesa do oligopólio continuam, mesmo porque, dado o acesso a tecnologias de pequena escala de geração de energia que qualquer cidadão poderia ter, hoje, coloca em risco uma significativa parcela desse mercado “cativo” dos oligopólios. E por mercado cativo incluo aqui a indústria toda, como os fornecedores, empreiteiras, projetistas, etc. como o caso Siemens tem deixado transparecer, ao levantar apenas a ponta da cortina. Certamente depois dessa não terei meu nome indicado como ministro das minas e energia. Nem Diretor da ANEEL. Que pena….

3. A terceira grande distorção é de ordem política. Barragens e reservatórios foram construídos desde os primórdios das civilizações. Mas com uma única finalidade, e  ainda com a finalidade única da geração de hidreletricidade, só muito recentemente, e nos países ditos “em desenvolvimento”. Se no Brasil dos anos 50, e 60 os usos múltiplos eram ainda muito incipientes (com exceção do nordeste) e nos anos 70 e 80 ainda não tínhamos acordado para entender a consequência de obras como Itaipu, Balbina e outras aberrações (a lista é longa, posso me estender se for necessário…), hoje a realidade é outra. Existe uma Lei (a 9.433, que nos institui) que determina a consideração de usos múltiplos como a única forma de utilização dos recursos hídricos que esta sociedade aceita. Só como um exemplo, hoje temos a agricultura intensiva e altamente capitalizada e tecnologizada para competir por esses recursos – e, segundo estudos da ANA, com maior valor econômico e social agregados do que a geração de eletricidade. Essa falta de visão multi-setorial causou desastres e distorções incomensuráveis com gravíssimas consequências para as alternativas de desenvolvimento do país, mas essas “externalidades” jamais foram computadas. Um dos principais fatores que permitiu, e até fomentou, que as nossas regiões metropolitanas se transformassem nessa coisa sem solução, foi justamente a visão uni-setorial tanto do setor elétrico (hidro) como do petróleo. Não é à toa a discussão em torno da falta de eficácia dos Comitês de bacia, os legítimos repositórios da aplicação do uso múltiplo, morrendo à míngua ou capturados pelo Estado, agente do status quo das empresas estatais/paraestatais ou essa mistura de jacaré com cobra d’água em que se transformaram (só pra não dizer que não falei da fauna, já que me considram um “eco-chato”).

Portanto, essa história de grandes reservatórios como a grande salvação para o desenvolvimento do Brasil não é necessariamente uma alternativa racional, com resposta técnica imediata, dada, primordial. Essa posição é essencialmente política e reflete não só os interesses dos grupos que a defendem mas também, e principalmente, o tipo de desenvolvimento que queremos (notem o plural).
Posso ir mais longe, a noite toda se for necessário. Mas vou parar por aqui porque já estou com azia.

Rodolpho Ramina

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Pra quem gosta de cenas fortes e ao vivo

 christianHoje fui convidado para um debate sobre a questão dos grandes reservatórios do setor elétrico pela turma de engenharia civil da UFPR. Vou debater com ninguém menos que um dos maiores defensores das grandes barragens no Brasil, o Dr. Francisco Luis Sibut Gomide, ex-presidente da Copel – Companhia Paranaense de Energia, Ex-diretor presidente da ITPAIPU Binacional, Ex-Ministro das Minas e Energia no governo de FHC, ex-presidente da Excelsa, a empresa de energia do Espírito Santo, e ex-professor de hidrologia da UFPR (foi um dos meus melhores professores em toda a minha vida acadêmica).

Me preocupa muito este debate porque, para quem conhece o Dr. Gomide, sabe que ele é uma das maiores feras na área e uma das melhores cabeças no setor elétrico. Já minha posição, como já devem saber, é frontalmente contra a construção das grandes hidrelétricas no Brasil, o que julgo uma aberração, os últimos estertores de um setor corrupto e em decadência. Já tive a oportunidade de conversar com ele antes, e tenho pra mim que ele me julga como uma “ovelha desgarrada”, um ecochato cooptado pelas forças malignas do pensamento ambientalista subversivo orquestrado internacionalmente. Provavelmente serei trucidado.
Mas, tendo em vista que fui convidado, isto também significa que há poucos dispostos a debater com ele, o que me deixa com uma pontinha de orgulho, além de triplicar a responsabilidade. Ou será que é muita idiotice a minha?

O evento será realizado nesta quarta feira, dia 19/março/14, às 19 horas no Auditório do 1o. andar do prédio da administração no Centro Politécnico, UFPR, Curitiba. Convido a todos os amigos e interessados, extensivamente aos amigos dos amigos, que gostariam de ver como se comportaria um cristão ecológico sendo jogado aos leões. Quem quiser pode também ficar para o subsequente velório.

Depois eu conto como foi…

Abraços a todos.
Rodolpho Ramina

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re-blog. De novo “O Nosso Metro”

Tendo em vista uma série de palestras que virão, resolvi republicar um post sobre o Metrô de Curitiba, ainda de um outro blog que eu mantinha (e que ainda está online: www.rhramina.blog.uol.com.br).

Alguns números estão defasados, mas a idéia geral permanece, bem como a pertinência da crítica, portanto aqui vai.

Abraços

R Ramina

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O NOSSO METRÔ.

Mais da mesma coisa.

O Metrô é uma alternativa tecnológica para o transporte de grandes fluxos de pessoas em trechos relativamente curtos, já que seu custo de instalação gira entre 70 e 150 milhões de Reais por quilômetro. Em áreas metropolitanas congestionadas, com altas densidades urbanas e em condições particulares de implantação, o Metrô pode até mostrar uma eficiência econômica que beira o break-even. O retorno político, por outro lado, é muito grande, e por isso o Metrô é tão popular.

Mas a questão do Metrô pode não ser essencialmente tecnológica. Talvez o fator determinante seja mesmo a classe média não querer “deixar o carro na garagem para passar desconforto”, como afirma o Presidente do IPPUC, o Eng. Augusto Canto Neto. Afinal, alguém tem que ir aos Shoppings, e de Metrô é mais charmoso! Seja como for, o Metrô tem sido considerado um remédio contra o congestionamento parcial, porém crescente, do sistema de trânsito de Curitiba – um remédio caro. O primeiro ramal, com 22 km, está orçado entre 1,5 e 2 bilhões de Reais para 390 mil viagens/passageiros por dia, ou seja, umas 200 mil pessoas (esse número está totalmente defasado – o número em Janeiro de 2014 era 4,6 bilhões de reais).

Até aí tudo bem. O problema é que o remédio, melhor que seja, pode não funcionar, porque o congestionamento é um sintoma, e não a causa. Afinal, por que tanta gente resolve ir pra rua ao mesmo tempo? A causa é a concentração urbana crescente de Curitiba, o aumento das densidades populacionais e de atividades no pólo metropolitano, tão marcante nos últimos 20 anos. E, é claro, as políticas públicas que levaram a essa concentração já excessiva. Temos outros sintomas, alguns até mais importantes que o congestionamento, e para os quais o tratamento prescrito é igualmente oneroso: as medidas necessárias para controlar as cheias na Bacia do Alto Iguaçu, amplificadas pela impermeabilização da superfície do solo resultante das altas densidades de ocupação, custariam perto de R$ 1 bilhão. Já a atenuação da poluição nessa mesma bacia exigiria cerca de R$ 2 bilhões (números também defasados, mas não tenho informações atualizadas). Esses projetos beneficiariam direta ou indiretamente mais de 2,5 milhões de pessoas.

Mas nada se compara ao custo de oportunidade perdida nas economias dos municípios periféricos. Suas áreas para desenvolvimento são transformadas em áreas de preservação de mananciais, uma vez que as fontes de água no pólo estão comprometidas e a demanda não pára de crescer. Carente das economias de escala capturadas pela capital, a periferia sofre com a falta de infraestrutura para os “dormitórios” e fica à mercê da boa vontade dos políticos, das volatilidades da indústria globalizada e dos “Planos de Desenvolvimento Sustentável de Ecoturismo Rural”. Ninguém acredita que possa existir vida inteligente fora do Núcleo Urbano Central, muito menos outros pólos econômicos viáveis. Nem mesmo a COMEC.

Equilibrar essa concentração toda, e ainda a que o Metrô vai ajudar a viabilizar, não será tarefa fácil. Exigiria, de início, uma nova visão metropolitana, menos míope, que permitisse enxergar além do Passaúna, das BR116 e 277, e ver, com muita clareza, as conseqüências do depósito de periferia em que Fazenda Rio Grande e Itaperuçu estão se transformando. Seria também necessário contemplar os imensos espaços vazios e deprimidos nos vales do Iguaçu e do Açungui e, com muita criatividade e simplicidade, imaginar novas possibilidades para a Lapa e Morretes, para as estradas de ferro e os caminhos esburacados do grande sertão metropolitano. Mas criatividade e simplicidade andam em baixa entre nossos planejadores.

Rodolpho Ramina

 

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